A reunião escondida que o vídeo revelou
Há um vídeo público que pode ver aqui em que Luís Filipe Vieira recorda uma reunião secreta em 2015, no Hotel das Lágrimas, em Coimbra. À mesa estavam Pinto da Costa, António Salvador e outros presidentes. O objetivo era simples: decidir os rumos da Liga Portugal sem ninguém do FC Porto ou do Benfica nos cargos de topo.
Uma conversa guardada em silêncio durante anos. Longe dos holofotes. Longe das claques. Longe dos adeptos. Para fora, o mesmo Luís Filipe Vieira e o mesmo Pinto da Costa atiravam acusações de corrupção, insultos pessoais e críticas ferozes.
O que mais impressiona neste vídeo é a forma leve, quase divertida, com que Vieira descreve a reunião, como se falasse de um encontro entre velhos amigos. Amigos que, na altura, juravam já não o ser e que se apresentavam como inimigos irreconciliáveis.
É precisamente nesta contradição, o que se gritava em frente às câmaras e o que se acordava à porta fechada, que se revela o verdadeiro teatro da rivalidade.”

O palco da rivalidade pública (2013–2016)
Convém relembrar, sobretudo aos mais distraídos ou esquecidos, que entre 2013 e 2016 o futebol português viveu uma autêntica guerra aberta entre os presidentes do FC Porto e do Benfica. Foram anos em que cada entrevista, cada comunicado e cada reunião de Liga se transformavam em munição para atacar o rival. Eis alguns episódios que marcaram esse período:
- 2013: Ainda com o FC Porto campeão, Vieira falava em vitórias “com faixas encomendadas”, insinuando que a arbitragem tinha sido decisiva no desfecho do campeonato.
- 2014: As farpas atingiram o auge. Vieira lançou o fantasma do Apito Dourado, acusando Pinto da Costa de ter sido condenado por corrupção desportiva e lembrando a história de árbitros corrompidos com prostitutas. Pinto da Costa respondeu, em reuniões da Liga, que o Benfica queria bipolarizar o futebol português e dominar as instituições com o Sporting.
- 2015: Pinto da Costa, em entrevista ao El País, acusou o Benfica de conquistar títulos “à custa da arbitragem”. Vieira ripostou dizendo que o líder portista não era a melhor pessoa para falar de árbitros e que “às vezes é preciso olhar para dentro de casa antes de atirar pedras”. Nesse mesmo ano, divergiram ainda sobre o sorteio de árbitros: Pinto da Costa e Bruno de Carvalho defendiam o sorteio, Vieira insistia na nomeação.
- 2016: Vieira carregou no ataque pessoal. Chamou Pinto da Costa de “dinossauro”, disse que estava velho e devia reformar-se. Acusou-o também de incoerência e de se preocupar mais com o Benfica do que com os problemas do próprio clube.”
Era o teatro perfeito para inflamar as massas. O Porto acusava o Benfica de manipular. O Benfica acusava o Porto de hipocrisia. E os adeptos, esses, engoliam a narrativa, alimentando ódios nas bancadas, nos cafés e até nas famílias.
Os bastidores do Hotel das Lágrimas
Mas o vídeo de Vieira mostra-nos a outra face da moeda. Em pleno auge da guerra verbal, em 2015, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira sentaram-se lado a lado para decidir quem devia liderar a Liga. Negociaram equilíbrios, alinharam interesses, selaram entendimentos.
E aqui quero ser claro: não critico que os líderes dos maiores clubes portugueses se sentem à mesa. Pelo contrário, considero saudável e inteligente que tenham a lucidez de discutir o seu business em conjunto. Isso deveria ser normalíssimo.
O problema não está em reunir, o problema está em fazer-nos de idiotas, fazer de conta que são inimigos irreconciliáveis para consumo externo, enquanto em privado agem como velhos amigos que eram.
Qual seria o mal de assumir publicamente: “sim, o presidente do Benfica é meu amigo, e juntos procuramos soluções para o futebol português”? Talvez esta nova geração consiga libertar-se dos dogmas do passado e assumir isso de forma natural.
Se assim fosse, muitos fantasmas subliminares desapareceriam e o nosso futebol teria mais qualidade, mais verdade e até mais união. No fim, seriam os adeptos os primeiros a ganhar.
Mas a verdade é que, naquela reunião, não houve comunicados inflamados, não houve insultos nem farpas. Apenas pragmatismo. Apenas jogo de poder. E isso, feito às escondidas, é que revela a pobreza do nosso futebol. Porque enquanto adeptos se engalfinhavam nas bancadas e nas redes sociais, os presidentes brindavam em hotéis discretos.
O choque da contradição
Onde o teatro cai a pique. Para as câmaras: gritos, farpas, insultos. Para dentro: jantares, cigarros e acordos. É o “deep state” do futebol a manietar as massas.
Admito: em tempos remotos, quando o FC Porto ainda se afirmava contra o centrismo, essa retórica de trincheira serviu para forjar identidade e resistência. Hoje, com os “três grandes” em patamar equivalente, essa encenação já não construí nada, apenas destrói.
É contraproducente para o crescimento de uma indústria que todos dizem representar.
Clubes unidos têm outra força para aprovar medidas que elevem a Liga: centralização de direitos, calendário racional, arbitragem verdadeiramente profissional, regras financeiras com dentes. Em vez disso, alimenta-se o tóxico que nos deixa na cauda da Europa.

Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira: perdão tardio, respeito nenhum
“Perdoei Luís Filipe Vieira e hoje estou com ele sem qualquer rancor.”
Pinto da Costa
Dito quando já não ocupavam as cadeiras de poder. Enquanto precisaram da narrativa da guerra, venderam hostilidade; quando já não arriscam capital político, normalizam a amizade. Isto não é reconciliação edificante, é o fecho cínico de um teatro que nos tratou como figurantes e insultou a inteligência do adepto.
E é precisamente aqui que a pergunta se impõe.
Vale a pena a nossa rivalidade?
Se Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira se insultavam em público e conversavam em privado em amena cavaqueira; se os rivais se rasgam em campo e se abraçam fora dele, por que raio havemos de deixar que o futebol divida famílias e amizades? Vale a pena vararmos noites a discutir o que transcende as quatro linhas, até nos roubar a paz?
Ser Porto é lutar em campo, vibrar nas bancadas, honrar a nossa identidade. Não é virar as costas a um irmão, a um primo, a um amigo por causa do teatro alheio. Não entregues o teu discernimento a quem lucra com a nossa zanga: pensa pela tua cabeça.
É isso que queremos aqui: criar massa crítica. Levantar factos, confronto de ideias e contextos, para que cada um construa um raciocínio próprio, lógico, fundamentado, com valores e verdade. Mística não é cegueira; é lucidez com garra.
No fim, o que fica somos nós. O Porto é de todos os que o sentem com o coração.
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