Arbitragem FC Porto: entre a desculpa e a perda da mística

Quando a cartilha matou a nossa identidade

Durante os últimos anos, fomos alimentados pela mesma cartilha: o FC Porto fazia tudo bem, mas os árbitros é que nos roubavam. Se tropeçávamos, a culpa estava sempre fora de casa. E assim fomos ficando atolados num pântano de desculpas.

A antiga direção, com a sua cúpula de manipuladores, transformou cada lance num espetáculo de indignação. Criou-se uma verdadeira indústria de “dossiês” de arbitragem, com gente paga apenas para rever jogos dos adversários em busca de erros. Scouting? Reforço de estruturas essenciais? Não. A preferencia era investir na propaganda.

Sérgio Conceição protesta com árbitro em jogo do FC Porto contra o SC Braga

Quando a mística virou choradinho

Não me interpretem mal: os árbitros são importantes e não devemos ser comidos de cebolada, nem parecer submissos a engolir tudo. Mas quando transformamos o erro alheio no centro da narrativa, perdemos a essência. A mística portista nasceu do contrário: entrávamos em campo já a perder e, mesmo assim, acreditávamos, reagíamos, vencíamos. Foi a injustiça que nos incendiou, não a choradeira que nos resignou.

Naquela altura havia quem jurasse que era impossível ganhar contra os árbitros. Iludidos! Tinham sido doutrinados para acreditar nessa mentira conveniente. O mais triste é ver que muitos continuam agarrados a essa cassete, mesmo agora que o Porto arranca a época a esmagar adversários.

O ruído que empobrece o jogo

O que falta é modernidade. Não podemos passar a vida a elogiar ligas estrangeiras e, quando chega a hora de aprender com elas, fechar os olhos e refugiar-nos no choradinho. O adepto português parece ter alergia a vitórias serenas: precisa sempre do escândalo, da gritaria, do fumo que lhe dê conversa para a semana. É por isso que aconselho a leitura de “As Causas do Atraso Português”, de Nuno Palma, de certa forma, explica esta mania de viver do ruído em vez de encarar a realidade.

O futebol é uma indústria de espetáculo, e ou o defendemos como tal ou vamos continuar a andar em círculos. Quem vive apenas para expor os podres da arbitragem e atiçar guerras entre clubes não está a defender o futebol, está a empobrecê-lo.

Aliás, pergunto: e agora, o que dizem os profetas da miséria que durante anos enganaram sócios para proteger uma direção falhada? Ontem ficou por marcar um penálti claro, mas mesmo assim ganhámos por 4. Como encaixam esta na sua cartilha?

Pepe em confronto com árbitros no Estádio do Dragão durante o FC Porto – Sporting

Entre vitimização e identidade portista

Volto a reforçar: não estou a dizer que não se deve falar de arbitragens. Aliás, os da velha guarda lembram-se bem do “vídeo do século” e de tantas outras situações. Eu próprio falei e falarei de arbitragens. Mas a questão nunca foi essa. O essencial é perceber que, em momentos estratégicos, faz sentido levantar a voz, mas sempre com cuidado, sem cair no exagero que passa para o balneário a ideia de que “não adianta correr, porque somos sempre prejudicados”. Esse é o veneno. Entrar derrotado antes do apito inicial foi exatamente o legado da incompetência da antiga direção: corromperam os valores do Porto e trocaram luta por vitimização.

Se queremos mesmo virar a página, temos de mudar a forma de agir. A arbitragem discute-se nos bastidores certos, com exigência, profissionalização e alianças estratégicas. Mas não pode ser o nosso alimento diário.

Quem passa a vida a gritar “roubo, roubo, roubo” acaba por perder credibilidade. E quem se esconde atrás de desculpas mata a essência do que é ser Porto.

Afinal, não foi a vitimização que nos fez grandes. Foi a coragem de correr mais do que os outros, de lutar até à exaustão e de transformar cada injustiça em combustível para vencer.

E vocês? Acham que o futuro do FC Porto passa por manter esta guerra constante contra árbitros, ou por resgatar aquilo que nos deu identidade: a mística de vencer contra tudo e contra todos?

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Best_Abraços,
Ricardo Amorim

📌 Série Especial: Viúvas

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