A farsa que nos custou milhões
Há coisas que nos dizem para aceitar como se fossem naturais. Uma delas foi sempre a ladainha das saídas a custo zero. Quantas vezes ouvimos: “O futebol mudou… não há nada a fazer… os jogadores não querem renovar… pedem milhões…”. Mas a verdade, nua e crua, é que isto nunca foi inevitável. E agora, anos depois, Brahimi voltou a confirmar aquilo que muitos de nós gritávamos na altura: nunca recebeu uma proposta de renovação. Nunca. Zero.
Não estamos a falar de um suplente qualquer. Falamos de um craque que, em cinco anos, deu 215 jogos, 54 golos e mais de 40 assistências e noites mágicas no Dragão. Um jogador que sempre mostrou respeito pelo clube e que, mesmo depois de sair, nunca deixou de falar do Porto com carinho. Ou seja, não era um mercenário. Era ativo, era talento, era dinheiro vivo que simplesmente deixaram fugir.

Não é incompetência, é sabotagem
Podemos discutir más vendas, contratações falhadas ou treinadores escolhidos à pressa. Erros fazem parte do futebol, e por princípio nunca ataquei quem erra tentando acertar. Agora, não vender quando existiam propostas concretas, e foram varias, sem pelo menos renovar o contrato na altura em que não se vendia, não é erro: é crime contra o património do clube.
E o mais revoltante é que não precisávamos inventar nada. Bastava fazer o que o FC Porto sempre soube fazer num passado já longínquo: renovar com jogadores que não eram vendidos de imediato, dando-lhes um aumento salarial que servia tanto para o jogador se sentir valorizado como para proteger o seu valor no mercado. Assim, o clube não perdia o ativo e podia vendê-lo depois em condições muito mais vantajosas. Ou seja, não era preciso descobrir nada de novo, bastava aplicar a política que já tinha feito parte do nosso ADN de gestão. A pergunta que não cala é: porque é que quem ‘inventou’ essa estratégia deixou de a aplicar justamente quando o clube mais precisava dela?
E não estamos a falar de um caso perdido na memória. São dezenas, como bem nos recordamos. O que para os distraídos parecia azar repetido, foi afinal uma política. E uma política contra o clube, que custou centenas de milhões.
E aqui entra o mais nojento e revoltante: além de perder o jogador a custo zero, ainda tivemos de pagar 6,5 milhões de euros à Doyen, por força de um contrato ruinoso. Para quem não entende: estas empresas blindam-se com cláusulas que funcionam como seguro contra administrações incompetentes, se o jogador sair sem venda, elas recebem para não ficarem a perder. Ou seja, o FC Porto conseguiu a proeza de não ganhar nada com Brahimi e ainda pagar para o ver sair. Se isto não é gestão para destruir valor, não sei o que será.
A fatura escondida de anos de silêncio
O que mais me indigna não é só o prejuízo financeiro. É a forma como muitos adeptos foram levados a engolir a desculpa do “não havia nada a fazer”. Essa narrativa não nasceu dos adeptos comuns, nasceu de pessoas dentro da estrutura com responsabilidades na comunicação do clube, de gente que se diz portista mas que se vendeu para justificar o injustificável. Foram eles que manipularam a massa associativa para acreditar nessa mentira, criando o álibi perfeito para continuar a roubar e a prejudicar o clube. E esse dano foi ainda mais grave do que o financeiro, porque corroeu a própria mística.
E a verdade nua e crua é que soluções havia, claro que havia. Há sempre opções: renovar mais cedo, vender um ano antes, negociar. O que não pode acontecer num clube como o nosso é deixar andar até ao zero. Isso é falta de competência, de visão e, pior ainda, de respeito por quem sente o FC Porto no osso.
Aliás, a própria gestão atual tem provado isso com mestria: em silêncio e sem ruído, está a renovar o plantel de forma exemplar, mostrando que quando há trabalho e estratégia, soluções existem sempre.
Durante anos confundiu-se lealdade a uma direção com lealdade ao clube. E enquanto muitos se calaram para não beliscar “o presidente”, o Porto foi sangrado. Milhões foram pelo cano abaixo, craques foram embora sem retorno, e ficámos a aplaudir títulos passados enquanto hipotecávamos o futuro.
A espiral que corroeu o balneário
E aqui está talvez o efeito mais perverso desta política: criou-se a ideia de que todos podiam e tinham direito a fazer o mesmo. Afinal de contas, quem não gostaria de passar quatro ou cinco anos num clube como o FC Porto, numa cidade como o Porto, num país como Portugal, a ganhar bem, e depois sair com o contrato na mão?
Era o cenário perfeito.
Mas atenção: não culpo os jogadores. Estando lá dentro, eles viam a falta de liderança, a corrupção operacional e directiva, e provavelmente pensavam: “se quem manda só olha para o bolso deles, porque é que eu vou ser diferente?” E assim, normalizou-se um ciclo de egoísmo que não só drenou centenas de milhões e ia acabar com o nosso clube, como matou a mística que fazia a diferença.

Indignação é o mínimo
Não me interessa se incomoda quem ainda vive agarrado à ilusão do “fizeram muito por nós” ou quem acha que agora, porque a bola entra, devemos virar a página. Eu não concordo com a estratégia de enfiar a sujeira debaixo do tapete. Prefiro encarar de frente, expor e mostrar a qualquer um – inclusive e principalmente à direção atual – que NUNCA mais vamos permitir que isto aconteça.
Porque não foi descuido, não foi azar. O que se fez neste caso foi roubar o FC Porto de forma descarada. Quem ainda tenta justificar este padrão de saídas a zero devia olhar para a realidadade desta janela de transferencias que vivemos e pensar nas oportunidades perdidas que tivemos. A indignação não é um capricho, é a única forma de impedir que o saque e a roubalheira se tornem normais.
Porque ser Porto não é só gritar no estádio ou recordar vitórias antigas. Ser Porto é também defender o clube da mediocridade interna. E neste caso, a verdade dói: fomos traídos por dentro.
O murro no estômago
Brahimi não fez mais do que confirmar o que já sabíamos. Mas ouvir da boca de um jogador que sempre demonstrou amor pelo clube, mesmo na saída, sempre com declarações de respeito e vontade de ficar, é um murro no estômago. Talvez por isso a sua saída tenha sido tão estranha para todos nós. E não foi a primeira vez: já em 2019, se a memória não me falha, tinha dito o mesmo. Agora voltou a repetir.
Isto devia servir para que nunca mais aceitássemos passivamente a conversa do “não havia nada a fazer”. Porque havia. Porque sempre há. E porque quem ama o Porto não se resigna. Indignar-se é amar.
Para os que gostam de comparações fáceis
Sei que muitos adeptos – as famosas viúvas – nestas conversas vão logo puxar a época passada para cima da mesa, como se fosse a medida de todas as coisas. Pois bem, aproveitemos o gancho de Brahimi: lembram-se que, em cinco anos no Dragão, ele só ganhou um campeonato? E nessa altura não havia metade dos problemas estruturais que hoje herdámos. E mesmo que houvesse, eram todos responsabilidade da própria direção da altura, ao contrário da atual, que teve de limpar a casa e reconstruir em cima de escombros.
Portanto, antes de virem com comparações fáceis, convinha olhar para a realidade e lembrar as dezenas de craques que deixámos sair a custo zero. E não, a culpa não foi só dos árbitros. Porque ganhar sendo “comido” pelas arbitragens é o que o nosso Porto sempre soube fazer.
O problema foi outro: foram estes casos que hipotecaram contratações, que nos tiraram margem de manobra, e que ainda se juntaram à fase em que começámos a ver jogadores duvidosos a chegar por valores astronómicos. Pedíamos dinheiro a atravessadores. Chegámos ao ponto de dever dinheiro ao próprio médico do clube, que servia de banco do clube.
Esse foi o verdadeiro desastre. Esse foi o retrato da podridão. E por isso, FJM, fica aqui a verdade nua e crua: o problema não foi só o que vinha de fora. O problema foste tu, foste tu e o teu clubinho da mentira e da manipulação que se venderam aos caprichos de uma direção que se afastou dos seus proprios valores e que deixaram o FC Porto a definhar por dentro.
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