Jakub Kiwior: o perfil do novo defesa do FC Porto

Porquê Kiwior e porquê agora

Há contratações que dizem mais do que um comunicado. A chegada de Jakub Kiwior sinaliza ambição, critério e uma ideia de jogo clara: um defesa canhoto, com passada larga, leitura de jogo e capacidade para iniciar construção sob pressão, alguém que tanto pode fechar o corredor esquerdo como alinhar no eixo quando o jogo o pedir.

Kiwior tem 25 anos, é internacional polaco, 1,89m, canhoto, e pode atuar como defesa-central, lateral-esquerdo ou médio de proteção. No Arsenal, foi utilizado sobretudo no eixo e ocasionalmente como lateral, destaca-se em duelos, desarmes e bloqueios.

Segundo Fabrizio Romano, o negócio deverá avançar com um empréstimo pago de 2 milhões de euros, seguido de uma obrigação de compra de 17 milhões, acrescida de bónus por objetivos e ainda de uma cláusula de percentagem numa futura venda, podendo o valor total chegar aos 25 a 27 milhões de euros. Face ao que inicialmente tinha sido noticiado, trata-se de um enquadramento mais favorável, e é precisamente esse detalhe que merece ser analisado com calma mais à frente.

Saída a três e coragem na primeira fase

Seja a partir da lateral ou do eixo, Kiwior dá-nos uma solução canhota natural para saída a três, libertando o lateral oposto para altura e largura. Com ele, a primeira fase pode ser mais limpa: passe vertical entre linhas, mudança de corredor com qualidade e tranquilidade quando a pressão aperta.

Jakub Kiwior reclama e gesticula durante jogo do Arsenal

Linha adiantada sem medo

Essa tranquilidade na saída com bola abre espaço para outra virtude: a coragem de jogar com a linha subida. O polaco lê bem a profundidade e não entra em pânico em duelos abertos. É duro o suficiente para “morder” no tempo certo – ao encontro do perfil agressivo que a equipa tem procurado neste mercado, para virar a pagina do Porto fofinho – e solto para cobrir as costas quando a pressão falha. Com ele, podemos subir o bloco sem perder segurança.

Versatilidade para resolver problemas

Além do eixo, Kiwior rende na esquerda e até como médio de proteção em cenários específicos. Essa polivalência é ouro numa época longa.

O que os números já mostram

No último ano em Londres, somou registos sólidos em desarmes, bloqueios, interceptações e duelos aéreos, reforçando o rótulo de ball-playing defender que não abdica de competir.

Acho que não precisamos de um “Beckenbauer” precisamos de alguém que ganhe duelos, proteja a área e dê a primeira saída com critério. É exatamente aqui que Kiwior acrescenta: menos chutão, mais passe que liga o jogo.

Impacto imediato no plantel

Mais do que preencher uma posição fixa, chega para dar ao treinador soluções, uma opção sólida na lateral esquerda e, ao mesmo tempo, um canhoto de raiz para o eixo. Obriga concorrência a elevar o nível e dá opções verdadeiras, não remendos. Isto é identidade: disputar lugares à Porto, pela exigência.

Bola parada: centímetros e timing

Em bolas paradas defensivas, ganha importância pelo posicionamento e tempo de salto. No ataque, arrasta marcações e abre zonas para finalizadores.

O contexto do negócio e o risco controlado

Confesso que já tinha este artigo escrito e que com estas alterações tive de voltar atrás e reescrever esta parte do artigo. É que inicialmente tinha criticado a ideia de um negócio “acima dos 25 milhões de euros”, mas como já referi no início, a realidade é mais equilibrada do que isso.

A nova estrutura permite ao Porto pagar menos no imediato, empurrar a fatia maior do compromisso para mais tarde e ainda condicionar uma parte do valor ao cumprimento de objetivos. E isto muda bastante a leitura: mesmo que o custo final possa chegar perto dos mesmos 27 milhões, será sempre porque o jogador rendeu e porque o clube também beneficiou desses objetivos.

Na prática, este modelo ajuda a gerir o impacto numa época em que, sejamos claros, já se investiu muito mais do que era esperado. Ao mesmo tempo, dá margem de segurança: o risco da adaptação existe, sobretudo porque, provavelmente, não chega para a posição onde construiu a carreira, mas o desenho do negócio deixa espaço para gerir esse fator.

No fundo, e ao contrário do que pensei quando escrevi a primeira versão deste texto, este é um negócio bem conseguido. Está em linha com o que esta direção tem mostrado nesta janela: um pensamento estruturado, planeado e sem passos em falso. Reduz o impacto imediato, salvaguarda o risco e, se algum dia atingir os tais 27 milhões, será porque o Porto também saiu a ganhar.

Quem é Kiwior, em três traços

Frio a decidir sob pressão

Não é espalhafatoso: dá a saída simples quando é simples e arrisca quando o jogo pede. Isso poupa perdas em zona proibida.

Corpo para a liga, cabeça para o clube

Físico competitivo (1,89m), agressivo no choque e disciplinado sem bola, com um posicionamento e movimentação sem bola acima da media.

Um canhoto que abre o campo

Com o pé esquerdo a comandar, a equipa ganha ângulos naturais para ligar o corredor esquerdo, algo que faltou demasiadas vezes.

Jakub Kiwior controla a bola durante jogo do Arsenal na Premier League

O que muda já no relvado

  • Primeira construção mais estável: menos bolas “quadradas” para médios de costas.
  • Linha defensiva mais alta: controlar transição com leitura e perna longa.
  • Saída pela esquerda com critério: lateral solto, extremo mais por dentro, médios com melhores linhas.

Mais solidez do que fogo de artifício

Nos últimos anos, o FC Porto habituou-se a ter laterais a pensar primeiro no ataque: cruzar, projetar-se, abrir largura e dar volume ofensivo. Muitas vezes, essa escolha trouxe fluidez no último terço… mas também espaço de sobra nas costas, fragilidades no fecho interior e momentos de desequilíbrio defensivo.

Com Kiwior, o paradigma na minha opinião pode mudar. Ele não vem para ser o lateral que faz assistências em catadupa ou que parte adversários em drible. O que vem trazer ao jogo é segurança defensiva: capacidade de ganhar duelos, leitura para antecipar e interceptar, posicionamento inteligente para anular extremos rápidos e avançados físicos.

É um defesa de raiz, sólido e pragmático. Pode jogar em linha de quatro ou fechar como terceiro central numa linha de cinco, dando corpo ao estilo tático do Porto em jogos grandes: solidez primeiro, risco calculado depois.

No ataque, tem qualidade para iniciar jogadas e mudar de corredor, mas não é, nem precisa ser, um diferencial em cruzamentos, dribles ou finalizações. O que oferece é critério na saída e equilíbrio no corredor, deixando os homens da frente fazerem o que sabem melhor.

Equilíbrio para os dois corredores

O FC Porto tem no lado direito um lateral naturalmente ofensivo, que gosta de se projetar e arriscar. A chegada de Kiwior pode funcionar como contrapeso perfeito: fechar em três quando Alberto Costa sobe, garantindo segurança atrás. O polaco tem leitura sem bola e antecipação fortes, o que permite que a equipa mantenha equilíbrio mesmo em momentos de maior ousadia ofensiva.

Na minha leitura este tipo de dinâmica pode dar algo muito interessante ao novo modelo do FC Porto o tornando mais solido nas dinâmicas defensivas.

Jakub Kiwior aplaude adeptos durante jogo do Arsenal na Liga dos Campeões

Pensar já na Champions de amanhã

Na minha opinião, Kiwior tem um perfil de Champions League mais do que de Liga Portuguesa. E isto liga-se a algo que tenho vindo a notar: este Porto de 2025/26 é apenas uma semente. O verdadeiro objetivo está em 2026/27, com uma aposta forte na Champions, e este tipo de contratação já reflete essa mentalidade.

Até lá ainda teremos mais duas aberturas de mercado, e percebe-se que o clube está a preparar o terreno com critério. Jogadores como Kiwior trazem competitividade imediata, mas acima de tudo representam uma mudança de filosofia: mais solidez, um jogo mais equilibrado e robusto, e a ideia clara de construir hoje o que queremos colher amanhã.

E há aqui um detalhe essencial que me agrada muito: quando a equipa sente essa solidez a partir de trás, ganha liberdade mental para arriscar no momento certo. Nos jogos que se decidem em pormenores, saber que a retaguarda está firme dá confiança para procurar o golo, mesmo quando o risco é maior.

A bitola é esta

No Dragão não chega “vir” tem de “entrar a matar”.

Kiwior tem perfil para ser útil já, sobretudo na lateral-esquerda, onde o Porto precisava urgentemente de soluções fiáveis. No eixo, a concorrência de Bednarek é pesada e sólida, pelo que não parece ser para aí que foi pensado.

Se trouxer a mesma frieza que mostrou em Londres e a fome que respira no nosso balneário, ganha ele, ganha o Porto… e perde de vez a narrativa de que “jogadores de equipas grandes não querem vir para o FCP” para elevar o plantel.

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Best_Abraços,
Ricardo Amorim

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